Levei muita tareia pelo prazer que me dava dizer não.
Essa mania, se assim se pode chamar, nasceu da relação conflituosa que sempre tive
com o meu pai. Por mais tareia que levasse a minha resposta era sempre NÃO. Consigo
ainda visualizar perfeitamente aquela régua metálica flexível com duas
borrachas na parte inferior para não escorregar sobre o papel. Era com essa
régua que meu pai descarregava a raiva de ser desobedecido por este filho magricela
e desengonçado na fase da infância e por quem ele não nutria grande simpatia. É
certo que a tareia era repartida entre mim e meu irmão mas não equitativamente.
Devido à minha teimosia, a raiva era mais pródiga comigo. Nem uma lágrima, nem
um soluço eu me permitia enquanto meu irmão chorava copiosamente. O meu
ódio por aquele homem era de uma tal grandeza que me era possível sorrir perante a
raiva e a humilhação que o meu pai sentia por se ver
desrespeitado… Hoje que sou pai e já também avô, não sinto mais rancor e até
consigo compreender aquele que foi o meu progenitor. Hoje perdoo, compreendo e
aceito a preferência que ele manifestava pelo meu irmão. Ele era o filho
obediente e meigo.
O prazer de dizer não manteve-se comigo durante muitos anos levando-me ao ponto de recusar alimentos que me ofereciam mesmo estando a morrer de fome…
Sei que a vida de meu pai não foi fácil tendo que acumular vários empregos, chegar a casa cansado e ter ainda que trabalhar ouvido a risota dos filhos no quarto ao lado.
O prazer de dizer não manteve-se comigo durante muitos anos levando-me ao ponto de recusar alimentos que me ofereciam mesmo estando a morrer de fome…
Sei que a vida de meu pai não foi fácil tendo que acumular vários empregos, chegar a casa cansado e ter ainda que trabalhar ouvido a risota dos filhos no quarto ao lado.
Hoje é natural que consiga conviver com um certo à vontade com o NÃO do meu neto de três anos. Ignoro
simplesmente o NÃO retirando-lhe o efeito do prazer que lhe dá dizer: NÃO!