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terça-feira, 31 de maio de 2016

AFINAL DE QUEM É A CULPA?

Geralmente, a culpa não é de ninguém porque ninguém a assume inteiramente. Há sempre uma desculpa para qualquer falha decorrente dos nossos actos. Por isso se diz que a culpa morre solteira…
Se há pessoas que assumem corajosamente as suas falhas, outras há com a estranha capacidade de culpar os outros das próprias falhas. Se perdem, a culpa é dos árbitros, se chegam atrasados, a culpa é de quem chegou mais cedo. Se ficam ausentes, a culpa é de quem não tentou comunicar e por aí adiante. Nunca são totalmente responsáveis pelos seus fracassos. Há pessoas assim com a surpreendente capacidade de elaborar argumentos de tal modo convincentes que, além de se auto convencerem da própria inocência, acabam por convencer os outros de alguma culpa mesmo que inexistente…É o que se chama virar o bico ao prego.
Afinal somos todos culpados senão cúmplices por fecharmos os olhos à violência contra o ser humano e animais, à corrupção que acontece à nossa volta, aos poluidores do nosso planeta, …
Na verdade, é mais fácil culpar os outros do que assumir a nossa quota parte da culpa.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

UMA ESPLANADA À BEIRA-MAR

Não fazia a mínima ideia de há quanto tempo estava a ouvir o seu interlocutor. Estavam sentados numa esplanada de frente para o mar. Embora parecesse distraído a contemplar a paisagem, escutava-o com atenção ao mesmo tempo que comparava cada uma das suas palavras com o que supostamente ele estaria a pensar. Aqui e ali encontrava discrepâncias ente o pensamento e as palavras proferidas. De tão habituado que estava a detectar essas diferenças, já não o surpreendiam nem mesmo o incomodavam. Além disso, o tema da conversa era o simples relato de um episódio familiar, nada que pudesse alterar o curso do planeta. Mas havia por trás do discurso uma mentira traduzida apenas por uma omissão de somenos importância. Não conseguia evitar irritar-se por não compreender de imediato o motivo destas omissões. Em todas as conversas há sempre alguma coisa a esconder por medo, vergonha ou simplesmente com o fim de consolidar a imagem criada pela própria pessoa. Ele mesmo tinha com frequência destas omissões.
Ao longe, na praia, as ondas continuavam a desfazer-se numa sequência monótona, umas atrás das outras. De repente, apercebeu-se do silêncio. O amigo terminara o seu relato. Geralmente gostava do silêncio, mas este começou a tornar-se um embaraço para ambos. Isso via-se pelo tamborilar dos dedos no tampo metálico da mesa. Pigarreou como quem vai falar sem fazer a mínima ideia do que ia dizer. No horizonte o sol tinha iniciado o seu lento mergulho nas águas do mar tingindo o céu de um vermelho rubro como se a própria cor se diluísse no azul celeste. Finalmente falou:
- Amanhã vai estar bom tempo… pela cor do céu… parece…
Nem sempre o que parece, é.
O boletim meteorológico anunciava chuva fraca para o dia seguinte.
(Jorge Leal, in O homem que lia o pensamento)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

ASSIM VAI O FUTEBOL PELO MUNDO

Não vai longe o dia em que o noticiário da RTP1 abriu com a notícia de que José Mourinho será o novo treinador do Manchester United. A notícia foi vociferada pelo locutor de serviço como se de um bofetão se tratasse para os mais distraídos. Dei por mim a pensar não sem alguma indignação: e eu com isso?
Se esta notícia não teve o impacto que era suposto visto não ser um adepto ferrenho do futebol, já a notícia da quantia disponibilizada para contratações deixou-me algum tempo a pensar. É que, segundo a notícia, o treinador terá ao dispor 260 milhões de euros…! Tal quantia ultrapassa em muito o Orçamento para a Cultura em Portugal (174,8 milhões para o ministério da Cultura) e equivale ao custo anual do Hospital de Santa Maria em conjunto com o Pulido Valente que irão custar este ano 400 milhões ao erário público… O futebol é que “induca” e de resto, haja saúde…
Note-se que ao homem (leia-se José Mourinho) não lhe cabe a culpa, se de culpa se trata, de lhe serem disponibilizados tantos milhões para fazer do Manchester um campeão, como os que seriam necessários para o orçamento da saúde e cultura em Portugal. Ainda por cima o clube nem é português nem os 260 milhões saem do nosso Orçamento de Estado.
Haja saúde e educação.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

FERIADOS

Num acto público inédito com o nome de “Cerimónia da Referenda da Lei da Assembleia da República que Repristina Quatro Feriados Nacionais”, o primeiro-ministro assinou oficialmente a reposição de quatro feriados retirados do calendário pelo então Governo de Passos Coelho e Paulo Portas. São eles o Corpo de Deus (26 de Maio), Implantação da Republica (5 de Outubro), Dia de Todos os Santos (1 de Novembro) e Restauração da Independência (1 de Dezembro).
Pessoalmente não tenho nada contra nem a favor dos feriados, mas reconheço que um feriado é sempre um dia bem-vindo para quem trabalha, especialmente se calha num dia útil, de preferência próximo ou logo a seguir ao fim de semana de modo a permitir fazer-se uma “ponte” e, por que não, umas mini férias.
Mas será que os portugueses tiram o melhor partido desses dias de folga no trabalho?
Lamentavelmente, nem sempre isso acontece, quer por falta de recursos económicos ou por falta de imaginação. Para muitos, um feriado a meio da semana de trabalho não passa de um dia destinado a descansar aproveitando para ficar na cama até mais tarde e preguiçar por casa o resto do dia. Mais lamentável ainda é verificar que num dia de sol e feriado muitos portugueses optam por “passear” as crianças no interior de um shopping…
Se o orçamento familiar não permitir que se faça umas mini férias, então ficar em casa pode ser uma boa opção no sentido de desenvolver algumas tarefas há muito adiadas por falta de tempo não descurando outras actividades como praticar desporto, fazer uma caminhada, ler um livro, ir ao restaurante do costume ou experimentar um novo, pegar no carro e ir tomar café à beira mar e aproveitar para partir à aventura de novos destinos.
O importante é aproveitar esses dias da maneira que lhe cause mais prazer porque feriados há alguns, mas vidas há só uma.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O LADO ESCURO DA SALA

Desligou precipitadamente a TV premindo com uma força exagerada o botão do comando. Levantou-se do cadeirão preferido para a leitura ou assistir a programas da TV e foi sentar-se no lado mais sombrio da sala como era habitual sempre que, por qualquer motivo, ficava acabrunhado já que a luz liga mais com a alegria e a sombra com a tristeza. O problema que o atormentava, era o mesmo de sempre. Sabia demais. Dominar o conhecimento das coisas, só por si, não constitui um problema, antes denota um dom, uma qualidade. Pode ser fruto de curiosidade no bom sentido e do domínio de uma ou várias ciências através de um estudo sério e profundo. Mas o que dizer quando esse conhecimento se concentra na natureza humana?
Quantas pessoas não dariam tudo, passe o exagero, para serem portadoras de tal dom? Casos haverá casos em que tal capacidade seria vantajosa e todos sabemos de alguns… Mas ele estava farto. De bom grado abdicaria dessa competência. Assistir na TV a declarações de inocência de políticos, ex-políticos, corruptos, ladrões, assassinos e saber com toda a clareza que estão a mentir, causa aquela estranha sensação de impotência e injustiça que faz doer não se sabe bem onde e que sempre o deixava naquele estado de prostração. Não, de maneira nenhuma apreciava ser portador de tão estranho dom. Ainda mais que não se aplicava à adivinhação dos números de qualquer jogo de sorte. Consistia apenas em adivinhar, se é que se pode usar o termo, o que se esconde por trás das palavras e dos atos do ser humano.
A tentativa de adivinhar o que os outros pensam é algo que toda a gente faz nas mais variadas circunstâncias no intuito de melhorar a interacção nas relações humanas. Neste caso particular, não se pode confundir “adivinhar” com qualquer espécie de telepatia. Será preferível falar-se em empatia, a simples arte de se colocar no lugar dos outros na tentativa de melhor os compreender. No caso concreto, a particularidade deste dom situa-se entre a telepatia e a empatia não chegando a ser uma nem outra coisa.
Por mais que cismasse ali sentado no escuro, nenhuma luz lhe iluminava o pensamento entorpecido pelo esforço de tanto pensar. Até que vinda, do lado luminoso da sala, uma presença o desperta daquele torpor. A pequenita, o rebento mais novo da família, tinha-se aproximado e olhava-o em silêncio. Parecia querer dizer na sua linguagem e trejeitos infantis: não te preocupes, não penses mais nisso. Nós, os humanos, somos assim. Dizemos o que não sentimos e fazemos o que não queríamos fazer.
Esplanada à beira-mar
(Jorge Leal, in O homem que lia o pensamento)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

A PAZ QUE SE RESPIRA

A paz que se respira através duma janela ainda que fechada vem de dentro, mas a paisagem também ajuda. Ajuda a distância, a vastidão do espaço, o céu azul onde se recortam no horizonte edifícios majestosos a par de outros mais humildes… Ajuda sobretudo o silêncio, aquela ausência dos sons citadinos em plena cidade apenas quebrado pelo chilrear da passarada.
Era assim a paisagem emoldurada por aquela janela através da qual se respirava a PAZ… mesmo com ela fechada.
Podia ficar ali até ao fim dos meus dias se a casa fosse minha, se não me fosse estranha a cidade… se o comboio não partisse…
Era assim a magia daquela janela através da qual se respirava a PAZ… mesmo com ela fechada.
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