Após
uma semana em que me senti prisioneiro na minha própria casa, ou seja, uma
semana de perfeito cativeiro, estou finalmente em liberdade. Não uma liberdade
plena pois estou ainda sujeito a alguns condicionalismos. Pode dizer-se que é,
de acordo com a definição da Wikipédia*, uma liberdade condicional.
O
facto de ter readquirido a capacidade de conduzir e de poder frequentar de novo
o ginásio sob determinadas condições é já um grande passo em direcção à
liberdade plena… Contudo a condução está ainda condicionada por algum
desconforto que não me permitirá fazer grandes viagens. No ginásio apenas consegui
fazer marcha e passar alguns momentos no banho turco. Nada mau.
Só
quem já passou por uma experiência tão limitante como esta, consegue
compreender o que é estar incapacitado de poder agir de acordo com as suas
escolhas mesmo que conscientes…
*é o sistema em que um
condenado, ao invés de cumprir toda a pena encarcerado, é posto em liberdadese houver preenchido determinadas condições impostas
legalmente.
Pois é,
faz hoje 15 de sofrimento físico e moral devido à queda que dei no ginásio. É sabido
que o sofrimento físico anda geralmente ligado ao sofrimento moral e interagem
de forma a avolumarem-se mutuamente. Quando se passa por uma fase de dor
intensa devida a uma qualquer causa (doença ou acidente), é natural que o
sofrimento moral lhe seja subjacente. Dizem os entendidos que, não raras vezes,
o sofrimento moral pode agravar a dor ao provocar contracções
musculares, entrando-se assim num ciclo vicioso. Não nego que no meu caso, o
sofrimento moral por me ver privado de certo modo da minha mobilidade não tenha
contribuído para sentir mais intensa a dor física.
Para usar uma palavra agora
muito em voga, direi que, devido à minha capacidade de resiliência, tenho
conseguido recuperar e sei que depois conseguirei ir para a frente continuando a
minha vida normal.
Apesar
de começar a sentir-me um pouco melhor, ainda não me atrevo a conduzir. E pensar
que anda aí tanta gente a conduzir em piores condições de mobilidade…! Felizmente ou infelizmente, conduzem a velocidades de tal modo reduzidas que só empatam e acabam por pôr em
perigo a vida dos outros… Bem, mas isso agora não interessa nada, como diria a
minha “amiga” Teresa Guilherme.
Embora
fosse a minha vez de conduzir e pagar o almoço, os meus amigos e parceiros dos
almoços de domingo não desistiram do almocinho e lá fui eu de boleia. Para fugir à rotina e por ser mais perto de casa, optamos pelo restaurante
City Top. Este restaurante, está inserido no complexo do City Golf da Senhora
da Hora, mesmo ao lado da Estrada da Circunvalação. Fácil de localizar. É um
espaço agradável com uma decoração moderna e funcional, super luminoso com
vista para o campo de golf. Mais importante que tudo isso, é oferecer, além um
serviço simpático e personalizado, boa comida a um preço bastante acessível. Recomendo.
Vale a pena experimentar por todos os motivos que enumerei.
Diziam os entendidos do IPMA
que o temporal vinha cá para o norte ao fim da tarde deste sábado mas ficou-se por um céu plúmbeo e nem gota de chuva… Como
se, desde o passado inverno, alguma vez ele tivesse ido em demanda de outras
regiões! Desde aí, não tem feito outra coisa senão breves pausas para recuperar o fôlego
e voltar a soprar com toda a força além de despejar cântaros de água na forma de chuva
e muitas vezes, granizo. Hoje, apesar da previsão de sol radioso, o céu
tornou-se cada vez mais escuro e a chuva voltou de mansinho. Se
o temporal, lá fora, se tem revelado violento, não menos rigoroso é o temporal
que há em mim… Um temporal de ventos ciclónicos de raiva por me ver privado da
minha liberdade e fustigado por dores que penso não merecer…
Todo o temporal é assim,
quando menos se esperara, ele desencadeia-se devastador com ventos fortes que
arrasam tudo até mesmo os sonhos mais fortes… e chuva intensa que alaga tudo e cuja
enxurrada arrasta mesmo a mais sólida esperança…
Como todo o temporal, também
o meu começou assim… quando menos se podia esperar, uma valente queda de uma
espreguiçadeira no ginásio cuja cobertura alguém colocara cuidadosamente de
modo a não se notar que estava solta. Eu não sou mau mas desejo que o autor de
tão solícito acto desça de cu um bom lanço de escadas onde quer que as encontre.
Eu não sou mau… mas podia ser melhor!
Resultado, segunda-feira,
passados oito dias da queda, fiquei longas horas no
hospital em observações e exames a tudo e mais alguma coisa! Fizeram o que era
necessário fazer!
Como me dizem, em ar de
consolo, podia ter sido pior! Claro que podia, podia ter partido o osso da
bacia, o tal de coxis ou coisa pior ainda que nem imagino o que seja…
Alegrem-se
os meus amigos e descabelem-se os inimigos porque estou em franca recuperação.
Já me consigo sentar embora por pouco tempo e com alguma dor e a pisadura
começa já a desaparecer. Até a tempestade interior começa também a amainar…!
No regresso de uma das últimas visitas de estudo que fiz
com os alunos (antes de me reformar), tomámos o funicular dos
Guindais. Qual a minha surpresa quando saí em pleno Largo Actor Dias! Foi no
1.º andar do número 82 deste Largo que nasci e cresci até cerca dos meus 9 anos.
Quando digo nasci, digo-o literalmente, porque o parto ocorreu em casa sendo
minha mãe auxiliada apenas por uma parteira (não profissional). Era assim que
as coisas se passavam em plena cidade Invicta.
Tudo me pareceu além de familiar, também
muito diferente da imagem que guardava de criança. O Largo não era assim tão
grande como eu imaginava nem a rua tão larga, nem os plátanos tão altos… A casa
já não existe, foi demolida para dar lugar ao viaduto da rua Duque de Loulé. Em
frente da minha casa, do outro lado da rua, ficava o Largo Actor Dias com o seu
chafariz ao centro rodeado de grandes plátanos, paredes meias com a muralha
Fernandina. Ainda hoje, apesar de estar em pleno coração da cidade, goza do
mesmo silêncio de outrora… e no silêncio do largo pareceu-me ecoar a lenga-lenga que precedia as nossas
brincadeiras do esconde-esconde ou caçadinhas como lhe queiram chamar: "Pim,
Pam, Pum, cada bola mata um, p'ra galinha e p’ró peru quem se livra és mesmo
tu". Seria bola ou bala? Bola não fazia grande sentido mas servia
muito bem para o efeito… Muitos anos se passaram, muitas casas já habitei mas, quando
ouço alguma criança recitar a lenga-lenga, sou transportado ao Largo e é essa
casa que revejo, a casa onde cresci…
Como diz a canção:
Et la
maison, où est-elle, la maison
Où j'ai
grandi ?
Je ne
sais pas où est ma maison
La
maison où j'ai grandi.
Où est
ma maison ?
Qui
sait où est ma maison ?
Ma
maison, où est ma maison ?
Do outro lado da rua ficava o prédio onde nasci
O chafariz ainda lá está bem no centro do Largo com a muralha fernandina como fundo
Era por esta escadaria (escadas dos Guindais) que, em louca correria, descíamos até ao rio
Do lado oposto às escadas ficava a Praça da Batalha onde não estávamos autorizados a ir mas sempre o fazíamos às escondidas da mãe...
Já aqui me referi a elas e
se volto ao tema não se fique a pensar que sou contra as lombas redutoras de
velocidade em locais onde isso se justifique tais como junto a passadeiras,
escolas e outros locais onde hajam ocorrido vários acidentes. A colocação das
lombas redutoras de velocidade na maioria dos casos seria perfeitamente
descabida não fora a falta de civismo de muitos automobilistas, mas enfim,
temos os automobilistas que temos…
Se por um lado lhes reconheço
algumas vantagens, ao contrário do que muita
gente bem-intencionada pensa, as lombas redutoras de velocidade têm uma série
de inconvenientes devido aos problemas que originam. Para não me alongar muito,
citarei apenas a poluição sonora que penaliza quem perto delas mora, o desgaste
ao nível da suspensão e direcção das viaturas o que poderá contribuir para
eventuais acidentes… Não posso deixar de referir (até porque o estou a sentir
na pele), os prejuízos que causam ao nível da saúde dos automobilistas e
passageiros principalmente se já têm algum problema instalado. E quem os não
tem, passará a ter a médio ou a longo prazo ao nível da coluna.
Todos os dias e várias vezes
ao dia, sou obrigado a “cavalgar” duas (e logo duas, Senhor!) dessas lombas
redutoras de velocidade, e sempre me revolto contra quem teve a “brilhante
ideia” de sugerir e aprovar a sua instalação no interior de um condomínio numa
zona onde não é necessária a travessia de peões nem existe recreio de crianças
que aliás dispõem de amplo espaço nas traseiras…! Não devo ser só eu a ter a
mesma opinião porque tenho observado, agora que estou mais tempo em casa por
motivos de saúde, que a maioria dos condóminos as contorna sempre que não há carros estacionados ao lado delas.
Será que quem as mandou instalar também as contorna…?!
A existência das (mal) ditas
lombas é um atentado à capacidade mental de quem as aprovou e de quem por elas
é obrigado a passar além de mais um exemplo de má gestão e aplicação dos
dinheiros do condomínio…